Depois de alguns meses sem se encontrar pessoalmente, os dois amigos tinham finalmente conseguido se encontrar para um happy-hour em um restaurante qualquer de uma cidade que agora não importa o nome. Eles se conhecem desde a época da faculdade e participaram ativamente da vida um do outro nos melhores e piores momentos. Casamento, nascimento dos filhos, batizados, falecimento dos pais, separação, dificuldade financeira, nascimento dos netos, festas de Reveillon, Natal e assim por diante.
Mas ultimamente a rotina impedia o contato mais diário. “Quem disse que aposentadoria é descanso mentiu”, disse sorrindo Alves. E isso é a mais pura verdade. Desde que se aposentou Alves não tinha mais tempo para nada. Era o responsável por levar os netos ao colégio e todas as atividades extra-curriculares que as crianças fazem atualmente. “No meu tempo era só ir para a escola, fazer dever de casa e brincar na rua. Hoje a agenda deles mais lembra a minha quando eu era executivo. Quando eles chegarem lá, o dia terá que ter 50h”, brinca Pereira.
Já Pereira não se desvencilhara totalmente do trabalho. Mesmo aposentado, aderiu a uma profissão da moda: consultor. Viajava o Brasil para salvar (ou não) empresas de diferentes segmentos. “Sou pago para falar. Isso para mim nunca foi problema”. Papo vai, papo vem, os dois conseguiram colocar boa parte do assunto em dia. Mas tinha uma coisa que Pereira não conseguia entender:
- Como você consegue ficar tanto tempo casado com a mesma mulher, Alves? Acho a Lídia maravilhosa, mas estar com a mesma pessoa há 35 anos é algo que não passa em minha cabeça.
- Pereira, você não é parâmetro para ninguém.
Gargalhada geral
- Eu sei. Nesses 35 anos já passei por três casamentos e muitas namoradas… Mas eu sei que você também teve suas aventuras, digamos, “extra-curriculares”.
- Tive sim… mas nada duradouro. Uma noite ou, no máximo, duas. E, sem querer ser machista, mas já sendo, foram essenciais para estarmos juntos até hoje.
- Como assim?
- Foi sexo. Só sexo, sem sentimento…
- Sei bem o que é isso, mas os meus casos sempre viraram novas ex-mulheres.
- Você é um cafajeste, Pereira. Sempre foi. No “melhor” sentido da palavra, se é que isso existe!
Gargalhada geral
- Mas me conte, Alves, o que leva você a estar com a Lídia até hoje? De onde vem tanto amor?
Alves parou para pensar. Tantas coisas poderiam ser ditas para responder a esse pergunta. Ele e Lídia passaram por tantos momentos juntos e ela sempre ao seu lado. Ela lhe deu os melhores presentes que poderia ter: seus três filhos. Segurou a barra quando ele perdeu o emprego e quando teve um infarto. Lídia também era linda. A garota mais charmosa da faculdade e manteve esse charme no passar dos anos. Não precisava de nada, cirurgia plástica, botox, nada. Gostava das mudanças das curvas do seu corpo e não se importava com uma gordurinha a mais aqui ou ali.
Lídia era paciente e sabia de todas as suas manias. Só ela tinha o jeito certo de lhe acalmar quando chegava nervoso em casa depois de um dia estressante de trabalho. Ela sabia falar a palavra certa na hora mais incerta, dando o conforto e segurança que precisava. Também sabia estimulá-lo a ousar mais seja nos negócios ou nas decisões com os filhos. Como também dizia, com seu jeitinho todo especial, quando era para puxar o freio nos gastos exagerados.
Como todo relacionamento, o casamento dos dois passou por altos e baixos. Mas os momentos de brigas foram tão pequenos relacionados a tudo que viveram que nem mereciam ser citados. Na verdade, eles dão risada até hoje da semana que ele passou fora de casa por causa do liquidificador. Sim, ele a traiu, umas duas ou três vezes, mas acredita que serviu para apimentar o casamento, para sentir que amava ainda mais a mulher… E ainda…
- Alves? Está difícil responder?
- Pelo contrário, Pereira… posso enumerar para você vários fatos, sentimentos que responderiam sua pergunta…
- E então?
- Posso resumir em apenas um: eu simplesmente amo o jeito que ela me diz bom dia toda manhã…
Pereira não estava preparado para essa resposta… pediu a conta e saiu sem dizer mais uma palavra…(Autor Desconhecido)